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10.10.09

A volta do homem arquetípico? Demorou...

Bom, primeiro: o que é um arquétipo?

No Houaiss diz que, de acordo com Jung, discípulo de Freud e criador da psicologia analítica, arquétipo é todo conteúdo imagístico e simbólico do inconsciente coletivo, compartilhado por toda a humanidade, evidenciável nos mitos e lendas de um povo ou no imaginário individual, especialmente em sonhos, delírios, manifestações artísticas etc.. Um arquétipo é uma imagem primordial, que é NECESSARIAMENTE coletiva, e existem por muitas e muitas gerações. O sensacional site Saindo da Matrix fala isso de uma forma bem interessante, mas dá uma pista mais exata quando questiona:

"Se deixarem de acreditar em um Deus, ele desaparece? Provavelmente sim. Mas o Arquétipo que o originou fará que sua função seja ocupada, em outra mitologia, por algum outro conceito substituto."

Pode-se entender que os arquétipos são espécies de respostas típicas a situações típicas, que têm como objetivo maior nos humanizar, querendo dizer com isso que aprendemos o que é ser humanos através dos arquétipos.

Depois disso, posso entrar no assunto desse post, que é algo que há tempos discutimos aqui dentro da CUBOCC: a volta do homem com barba como representação masculina para a publicidade. Isso acontece desde 2006, conforme matéria do NYTimes, onde a barba invadiu os rostos de alguns sex symbols de Hollywood. Mas só agora em 2009 é que se materializa como arquétipo, pois vai além de elementos isolados e criam narrativas completas.

Assumimos isso como um mea culpa da publicidade, que sempre foi pródiga em replicar estereótipos, ou seja, uma idéia ou convicção classificatória preconcebida sobre alguém ou algo, resultante de expectativa, hábitos de julgamento ou falsas generalizações.

Quando falamos em arquétipos masculinos, embora existam classicamente, vemos alguns deles representados em campanhas de grandes marcas mundo afora. Exemplificamos algumas campanhas de outono e inverno para 2009/2010 onde eles aparecem de forma gritante.

Existem uma série de arquétipos que servem como matrizes de imagem para o homem desde que nos tornamos animais simbólicos (na verdade, quando deixamos de ser caçadores e passamos a ser agricultores - trilênios atrás). Essas matrizes de imagem ou, conforme dissemos acima, imagens primordiais, ajudam ao homem a definir o que é ser homem, masculino, e entender os atributos da masculinidade.

Todos ele são descendentes do arquétipo masculino maior - O Grande Pai. Eis alguns exemplos dentre muitos:

  • O caçador / trabalhador
  • O herói
  • O guerreiro
  • O padre / pastor , ou aquele que guia espiritualmente
  • O rei

O homem comum de hoje em dia passa por uma enorme crise de identidade pois esses arquétipos foram corroídos pela convulsão em nossas estruturas sociais, as drásticas alterações nos papéis dos gêneros, e o desaparecimento de modelos masculinos fortes. Nunca, em toda a história humana, nós enfrentamos esse tipo de conflito que os machos da espécie estão passando. Hoje, os homens são forçados a se redefinir, ainda mais pela ascensão de estereótipos como os (blergh!) metrossexuais.

O estresse que esse tipo de coisa causa ajuda a piorar ainda mais a vida do consumidor. Não adianta publicitários tirarem o c* da reta e dizerem que nada tem a ver com isso, por apenas refletirem a "realidade do consumidor". Não! É mentira, pois todos sabem o valor civilizatório dessa área que a gente ganha o pão, assim como o poder legitimador/formador de opinião que a gente tem.

Um exemplo brazuca sensacional é o da Schincariol, com a campanha "Pega Leve". Nele, um sujeito deixa-se influenciar pelos estereótipos e no final acaba cedendo ao arquétipo:



Não apenas atitude, mas percebemos que cenários tornam-se arquetípicos:






  • A clássica maison Hermès vem se alimentando dessa visão arquetípica há umas duas estações. Mas é na atual que isso se faz mas claro:

  • Por meio do cenário:



  • Por meio da caracterização do modelo Patrick Petit Jean, que se configura como um homem que pastoreia:



  • Aliás, Patrick Petit Jean (e sua barba rebelde) parece ser o cara a trazer a imagem do homem arquetípico de volta à moda:






  • Update: assim como Sebastien Chabal, jogador de rugby francês




  • A barba tem sido metáfora essencial e eficiente do simbolico masculino, e está presente em muitas campanhas, funcionando como um convite ao homem a viver seus arquétipos:
  • Na Aether Apparel:



  • Na Moncler, por meio da figura do fotógrafo hirsuto Bruce Weber, que também reflete a figura de um trabalhador que pastoreia, mas sem rebanho, apenas ele e sua matilha:



  • Louis Vuitton também enobrece os homens por meio do arquétipo do rei:



  • E também a marca inglesa Hackett:



  • Patek Phillipe, a marca de relógios, faz um blend de arquétipos há anos, em campanhas simples, porém geniais. Vemos em todas a figura do Grande Pai, do Rei, com alguma coisa do guerreiro e do pastor:


  • Mas é a campanha da Go Forth, da Levi's, que melhor soube atualizar os mitos e os arquétipos, transformando-os em algo inteligível para todo mundo:






Quando tudo parece confuso, perdido e previsível, nada mais natural que um retorno às raízes para reencontrarmos nossas identidades. Felizmente, num tiro que dou no meu próprio pé, não é por meio de produtos ou marcas que isso acontece. Nenhuma marca, em hipótese alguma, tem o poder de nos definir. E, se o faz, é de forma pobre e estereotipada. Um espelho velho e embaçado, que tenta nos imitar.

Elas podem até dar o início a um processo de autodescoberta, mas depois são deixadas de lado, pois não há, apesar de todas as nossas falhas, algo mais fascinante que a noção de humanidade - nossas singularidades, nossas possibilidades e o mistério de sermos assim tão únicos.

12.9.09

O que sobrou do corpo



The Final Inch é um documentário sobre os esforços mais recentes de ONGs e seus voluntários no combate a poliomelite em diversas partes do mundo.

(Tão incomum quanto o tema, é o perfil de quem apoia o lançamento, que rola semana que vem nos EUA: Google, Karmaloop e Antenna Mag. Os dois últimos, um e-shop fashionzinho e uma revista de cultura urbana e tendências).

Mais interessante ainda é que esse documentário não é o primeiro a abordar uma doença e o que implica sua causa. Em janeiro, o XDR-TB veio ao mundo através das lentes de alguns fotógrafos para mostrar o surto silencioso e esquecido de tuberculose. Uma doença que, a princípio, está controlada e não incomoda ninguém.



Os argumentos desses filmes chamam mais atenção do que os patrocinadores e as próprias doenças. O da polio, por exemplo: a vacina contra a polio foi criada há 50 anos, mas ainda hoje existem pessoas que não tem acesso ao antídoto e muitos governos argumentam que as campanhas de vacinação são impedidas por "conflitos locais", como guerras civis e confrontos entre etnias, o que não passa de uma grande mentira e uma desculpa absurda para fazer nada.

Vejo que o boom científico dos anos 70, 80 e 90, que trouxe a descoberta de doenças e a cura para tantas outras, agora, não faz mais sentido se o acesso é limitado. Com os custos de produção mais baixos e a qualificação das redes de distribuição, não tem sentido a inexistência de uma empresa com o espírito "free" na indústria farmacêutica para contornar esse cenário. Talvez seja essa a mensagem. Talvez seja esse o propósito a ser levado adiante. (Mesmo que enfrentar a proteção de patentes seja uma guerra quase impossível de ser vencida e o tenham perseverado com os medicamentos para tratamento da Aids).

Nos últimos 10 anos criaram a ilusão de que o acesso à informação transformaria a realidade de muitas comunidades. A última campanha do Criança Esperança abordou o assunto com muita força e as últimas edições do Globo Repórter sobre Amazônia desconhecida desvelaram que a ocorrência de PCs na floresta tropical é tão grande quanto a de araras, onças e sucuris. O barulho em cima dos princípios de aldeia global que a internet fez ressuscitar sufocou o invisível.

Os reports decretam a morte do corpo. Mas enquanto que os gadgets transformam cabeça, tronco e membros em paisagem, a gripe suína, a polio, a tuberculose, a febre amarela e a dengue (só para dar exemplos mais próximos) mostram que ele está bem vivo.

Há espanto quando crianças chegam de volta das férias e não beijam o rosto uma da outra por causa do invisível.

A invisibilidade é uma desculpa para fazer nada.

Talvez seja essa a reflexão que deva ser desencadeada, bem antes de qualquer propósito ser levado adiante.

14.5.09

Woolies

O fetiche deles é a lã e, nos fóruns onde discorrem sobre as suas vontades, trocam algumas promessas, como "quero ver você vestido com aquele suéter...", entre outras fissuras do gênero.


Update (Keid)

Intuo que os woolies sejam uma variante dos furries. Em tempos de superhumanidade, desejar o que há na superfície - lã, pelos ou pelúcia - é uma consequência natural. Sem julgamentos: cada um ama o que e como pode.

2.5.09

Esse post começou a ser redigido no aeroporto de Guarulhos, exatamente à 01h11min do dia 1 de maio. Um dia, quem sabe, histórico para o país. Afinal, ninguém tem coragem de apostar as suas fichas no impossível desembarque de um passageiro com um monte de vírus H1N1 nas suas mucosas bucal e nasal. Até então, depois de quase uma hora no aeroporto, vi apenas uma passageira e três funcionários do aeroporto utilizando máscaras. Por conseqüência, recebi também um telefonema da minha digníssima explicando que assistiu o Jornal da Globo e achou conveniente sugerir que eu usasse uma máscara. A mídia está cumprindo o seu papel com êxito. Se a intensão é instaurar o caos, está no caminho certo. Pelo menos assim, por enquanto, os piratas somalis ficam distantes da mídia. Mas apenas da brasileira.


Quando chego no aeroporto, a primeira coisa que faço é ir até a banca de revistas. Hoje, tive a sorte de me deparar com o último exemplar da Monocle (May/09) que existia na prateleira. Um dos destaques da revista são os esquecidos somalis. Os caras que assustaram todo o mundo. Não por brutalidade, mas pelo primitivismo da prática. Por óbvio: um mundo acostumado com megaoperações motivadas pela pedofilia online em que ações integradas enchem de orgulho qualquer secretário de segurança e delegado, jamais contaria com a necessidade de voltar as forças dos seus exércitos e polícias para enfrentar os destemidos terroristas africanos armados de barcos espelunquentos e fuzis enferrujados. E por conta disso, a Monocle construiu a sua reportagem em cima do aparato montado pela UE para conter os ataques. Quer dizer: mostrou o lado impotente.


Liberar as embarcações não sai abaixo de milhões. Como bem sabemos (nós, da CUBOCC), um navio parado representa alguns milhares de dólares perdidos por hora e surte um efeito no mercado de distribuição global como o de um parafuso solto na engrenagem de uma esteira de produção de qualquer megaindústria.

Então que depois de processar essas duas informações e resgatar fatos do dia que pudessem construir algum raciocínio a partir do que passou pela cabeça desde que cheguei no aeroporto, lembrei de uma reportagem do G1, onde o acadêmico norte-americano Jerome Corsi explica as entrelinhas do seu livro Obama Nation e justifica a sua tese: nas mãos do Barack, o EUA caminha para o socialismo. Misturando as três coisas, cheguei a conclusão de que não vivemos o caos e muito menos uma crise financeira ou sanitária. São todas, obviamente, noções de descontrole que criamos para especular a possibilidade de que, antes, estávamos no controle. Bullshit.


Nunca a precariedade logística, sanitária, econômica e ideológica do mundo estiveram tão evidentes quanto agora. O espanto de Jerome diante da postura de Obama, que é a de estatizar a economia, representa melhor esse cenário. Pois, nem o campo teórico, que sempre deu conta dos confrontos ideológicos e da complexidade social do mundo amparado por Barthes, Bordieu e Mafesoli, consegue fugir dos estereótipos do século passado para pensar no novo.

Não podemos nem contar como novo. Mas apenas um reload em algumas coisas desgatadas. E socialismo... Não, creio que não.

Tamanha é a insegurança que chegamos ao ponto de o general Chávez convidar o excelentíssimo professor de direito da Universidade de Chicago a fazer frente pelo socialismo mundo afora. Isso parece aquele momento em que a família descobre que a menina de 15 anos engravida do namorado e, pela fragilidade da situação e da moça, confere a si o alvará de antropóloga do baixo clero e passa adiante dicas extraídas de interpretações equivocadas de casos de vizinhos, amigos e colegas de serviço. O Chávez é a tia gorda que insiste para a menina dormir na casa dela até que a poeira abaixe. Todos querem opinar na vida do Obama. Mesmo ninguém sabendo o que a menina parirá depois e quem é de fato o pai da criança.

E como a gripe suína é só um vírus e não é de ninguém, resta ter medo mesmo e instituir o estado de terror. Que não tem nada a ver com o de direito, mas que se serve dele como base para a construção do terror. Nesses casos de "inimigo invisível", lembro bastante das histórias inventadas sobre a invasão dos et's em algum planeta com formato e com pessoas parecidas com a terra que já se viu muito no cinema (desculpe, mas eu não vi). Eles são silenciosos e assustadores. Mas no final todo mundo descobre que, na real, eles só são verdes e, eureka, ignorantes somos nós de acreditar que eles tem a mesma vontade de dominar tudo (dominar no sentido de conquistar e de controlar coisas e seres).

Encerro o texto aqui reivindicando o meu direito de ser aleatório.

7.4.09

Yuri's Night




O nome da festa é uma homenagem ao Yuri Gagarin e representa a celebração daquilo que um dia já foi o projeto para um futuro voador, tecnológico e espacial.

Mais divertido do que isso é fazer sarro com toda aquela baboseira de corrida espacial e guerra fria que a URSS e o EUA protagonizaram por causa de uma coisa tão inútil para a vida do humano como a conquista do espaço.

Nunca consegui descobrir o que eles tanto queriam (e ainda querem, pelo menos a NASA) revelar sobre as galáxias.

Bonito é ver a China seguir o mesmo script para confirmar o status de grande potência.

2.4.09

Só isso


"O que verdadeiramente importa é a aptidão para captar o abstrato; a possibilidade de um pensamento sem imagem (...)"

2.3.09

Passado

Interessados podem entrar em contato aqui.

27.2.09

Solidão compartilhada

Comparando à época de seu lançamento, ver o conceito de LIFE CACHING (criado pela trendwatching) materializado hoje em dia é... estranho. Os caras criaram uma definição brilhante da possibilidade que o compartilhamento de realidades individuais traria para as marcas e consumidores. Mas, ao vermos isso acontecer, pode incomodar pela narrativa um tanto solitária.

Graças ao Arthur Soares, que postou um twitt sobre uma comunidade no Flickr chamada My Day, Yesterday, conheci a aplicação prática de salvar a vida digitalmente. O resultado é esse:





Mais que realidades que se mostram, o que vemos é uma solidão comum a todos desesperadamente compartilhada. Achei deprê.

4.2.09

Paz

Os paraenses Joelma e Chimbinha, da Banda Calypso, concorrem ao Prêmio Nobel da Paz. A indicação foi oficializada na segunda-feira, em Belém (PA), pela organização não-governamental Comitê da Paz.



Os macacos discutem Nietzsche e dançam Calypso sem dar qualquer consideração ao fato de que Nietzsche, Joelma e Chimbinha também são macacos.

A Lua me traiu.