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9.5.10

O Trabalho e a Arte de Viver

Há alguns anos tenho desenvolvido uma insônia irritante. Em parte pelo meu amor à cafeína, por outro lado, pelo fato de teimar em ler e/ou ver filmes antes de dormir, já que é o único momento do dia que tenho livre. Porém, há duas semanas, é um humilde livro de bolso de 64 páginas que tem me tirado o sono. E isso me tem feito feliz.

O livro é de um autor que até então me era desconhecido, o australiano Roman Krznaric. Nome estranho, mas um escritor pragmático, com uma prosa muito simpática, que consegue a proeza de ser ao mesmo tempo leve enquanto cutuca feridas. O livrinho em questão chama-se Work and the Art of Living, cuja tradução em português é o título desse artigo. Nele o autor questiona a máxima de Mark Twain, que afirma ser o trabalho um mal necessário a ser evitado. Krznaric afirma, por meio de um mergulho em reflexões culturais, históricas e psicológicas, justamente o contrário – trabalho pode sim ser prazeroso. E mais: pode enriquecer nossa alma.

Ele sabe que não é fácil, mas nos leva à consciência do quanto podemos nos contaminar pela variável “acomodação”, como no seguinte trecho:

“Às vezes pode parecer impossivel mudarmos nossas vidas profissionais, especialmente quando nos sentimos imobilizados por qualificações limitadas e a necessidade de pagarmos nossas contas. Simultaneamente, jogados na turbulência de uma crise econômica global, mudar pode parecer não apenas arriscado, mas até mesmo uma indulgência. Ainda assim, são exatamente nesses momentos de impasse ou crise que novas oportunidades podem surgir – não apenas na sociedade como um todo, mas em nossas próprias vidas”.


O restante desse livrinho ajuda a humanizar o trabalho, e faz refletir sobre questões existenciais maiores, relativas à vida profissional: faço um trabalho que realmente amplia meus horizontes e é grande o suficiente para minha alma? Será que trabalho demais – e será que pelos motivos errados? O que devo buscar por meio do trabalho – dinheiro, status ou uma consciência mais profunda de sentido e significado? Como supero meus medos e desenvolvo minha confiança para mudar?

Não temos mais que perseguir o modelo de vida de nossos pais. Ao contrário deles, o que não nos faltam são opções, mas no fundo, ainda queremos os valores de épocas que não existem mais. Embora o Brasil ainda se apegue a conceitos como estabilidade e segurança, conheci e tive a honra de trabalhar no desenvolvimento da comunicação de um projeto de pessoas que, sem querer, seguem a lógica do livro. A verdade é que eles foram além, e trazem os atributos essenciais do papel de uma empresa contemporânea. Acredito também que esse projeto pode ser um antídoto para a insônia de muita gente.

Falo do AREA, um hub empreendedor que já existe e dá seus primeiros passos em São Paulo, mas que muito em breve vai ser uma outra definição para a palavra mudança. Não são daqueles grupos de investimento tradicionais e míopes, muito pelo contrário. Nas palavras deles, a missão do AREA “é capacitar jovens a transformarem boasidéias em empresas lucrativas e com forte impacto positivo na sociedade, utilizando para isso soluções de conhecimento, tecnologias e conexões para jovens empreendedores alcançarem a realização pessoal e o sucesso de seus negócios.” Do plano de negócios aos investidores, passando por suporte intelectual, o AREA acompanha a realização do sonho.

Isso significa trazer definitivamente para o Brasil a noção de que empresas e suas marcas têm que ir além na relação de consumo. AREA traz uma perspectiva que já é realidade em outros países: o consumidor não quer apenas a troca de seu dinheiro por benefícios emocionais/funcionais de produto – quer saber o que a empresa faz para tornar o mundo um lugar melhor. Isso é impacto positivo, onde todos ganham pois se preservam. Por si mesmo, o AREA é a materialização dessa ideia, e nos ajuda a acreditar que isso é possível.

Sinto que muitos de nós têm medo de abrir mão do que o senso comum chama de conquistas profissionais. Mas olhando bem de perto, parece mais uma realidade miserável e sem criatividade, onde a única recompensa é o salário certo todos os meses (uma indenização por não se fazer o que quer?). O mundo corporativo não foi concebido para dar espaço à sua individualidade, já que empresas pedem por características que caibam em caixinhas predeterminadas. Assim, nesse círculo vicioso, o cinismo paralisa, o medo torna-se a norma, e a alma morre aos poucos.

O fato é que a vida de todos nós é 100% feita de incertezas. Mas acreditar que uma mudança é possível e agir para fazer acontecer, já acena que se tem no mínimo 50% de chance de sucesso. Seja como for, você já ganha muito.

[Artigo publicado na ResultsOn, em 03.05.2010]

17.9.09

Dinah Might



Quando já se exibiu tudo o que tem para ser mostrado, é cobrindo com penas a ameaça de não ter mais acesso que reconstruímos o nosso imaginário, as fantasias que embasam o desejo, a tensão.

14.9.09

A hora e a vez dos Furries

A gente já tinha cantado a bola em fevereiro e maio. E reforçamos de novo agora em setembro. Furries são, definitivamente, uma realidade que requer um segundo olhar e alguma consideração.

Acaba de ser lançado o vídeo do Pull Tiger Tail para a música Even Good Kids Make Bad Sports, e nele um casal de furries passeia por Londres em busca de algo que deixou a moça fantasiada de zebra bem triste.



Mais uma vez reforçamos: as pessoas estão fragmentadas. Isso não é um sintoma esquizóide, mas sim uma característica contemporânea. A alma humana não se restringe a ser UMA, pois somos VÁRIAS coisas ao mesmo tempo. Só nos resta abraçar a diversidade humana em todas as suas complexidades e incoerências. Como diria Truman Capote, "quem é coerentemente coerente tem cabeça de batata".

Como fechei no post anterior:

O mais legal disso é a capacidade que algumas pessoas tem de inventar outras realidades, em universos paralelos à vida real. Isso não apenas é possível, mas intuo que até certo ponto, seja saudável: não há nada pior que viver entricheirado em suas fantasias, sem espaço para expressa-las. Furries são o oposto disso.

25.4.09

A Imagética da Libertação

A dinâmica da sociedade de consumo é uma das coisas mais perversas desses tempos hipermodernos. Assim como Danilo Martuccelli, eu acredito na evidência de que os problemas que a sociedade não consegue resolver, as questões que não consegue elucidar, voltam para o indivíduo, e assim ele terá a responsabilidade de responder e solucionar sozinho - sem ajuda, sem repertório e sem tecnologia pra isso.

É algo do tipo:

"Olha só, inventamos um monte de realidades mentirosas e alternativas, e incutimos uma série de idéias em vocês, mas fodeu... Se deu tudo errado, não prevíamos isso, logo, não saberemos resolver. Seremos obrigados a nos eximir de responsabilidade pelos efeitos nocivos, contrários e colaterais. Desculpaê."


Como profissional de planejamento (e co-criação), tenho algumas regras morais muito claras em relação a isso. São diretrizes pessoais e intransferíveis, e estão inseridas no contexto de uma agência challenger e libertária como a CUBOCC, mas me dão tranquilidade de, no final do dia, não foder a psique e a realidade do consumidor com idéias impossíveis. Eu nunca falo o que as pessoas querem ouvir para escapar à dureza da vida, nem as iludo com motivos para preencher lacunas existenciais. O que me proponho a fazer é dar subsídios, por meio de estratégias de comunicação, para as pessoas resolverem criativamente a questões que meus produtos podem ser parte da solução. 50% depende de esforço pessoal, onde o consumidor é agente indispensável para a mudança.

Se criamos imagens e ideários impossíveis para pessoas que buscam fazer parte deles, algo está muito errado. Falar sem ter espaço para o discurso acontecer é patético. Felizmente parece que vários segmentos de indústrias que se baseiam no imagético para existir estão questionando isso. Artistas, estilistas e revistas também estão aderindo a isso, mostrando o poder da diversidade como elemento de questionamento e, consequentemente, de mudança.

Obra Plástica de Camilo Barreto


A belíssima atleta-atriz-modelo Aimee Mullins


Murray Vern para Pure Magazine (2008)


Foto presente na Black Book Magazine (2009)

Helmut Newton retrata a modelo Nadja Auermann na série 'The Empowered Woman' - Vogue (1995).

Obra Plástica de Camilo Barreto (2008)

Foto de Diana Scheunemann (2009)


Romain Kremer & Renata Veras - Primavera/Verão 2009

Foto de Oleksiy Maksymenko (2008)

Audrey Blouse da coleção Wheeliechix Chic (2009)

Catherine McNeil para a Vogue francesa (2008)

Quando surgem iniciativas como Britain's Missing Top Model, temos uma bela oportunidade para questionarmos esses padrões e ideais utópicos que envenenam nossa individualidade e espontaneidade. 8 garotas lindas, mas com o detalhe de serem portadoras de algum tipo de deficiência, estão numa disputa para um ensaio fotográfico e capa para a Marie Claire britânica pelas lentas do mestre Rankim. Kelly Knox foi a vencedora:

Tá mais que na hora de criarmos imagens que nos ajudem na libertação de conceitos nefastos como esses que vivemos atualmente. É possível mudar... é só querer.

Inspirado em post do blog Trend de la Creme.