Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens

4.1.10

Publicidade Ufanista CAPS LOCK

Preparem-se para as tendências em comunicação no Brasil nesse 2010.

2 exemplos de 2009 nos mostram quais serão os formatos, linguagem, narrativa e tom de voz vigentes para esse ano que chegou: comerciais de um minuto, recortados com flashes intermináveis de ufanismo e uma dinâmica narrativa que é insuportável - o volume.

Começa falando manso, vai ficando com voz mais forte e termina quase aos berros com um texto piegas e de um nacionalismo que faria até Hugo Chavez corar.

Bem-vindo à nova era da publicidade ufanista CAPS LOCK.

1. Brahma



2. Governo Federal



Esses comerciais me lembraram muito um ataque histérico. Segundo Freud, o ataque histérico é resultado de lembranças reprimidas. Assim, na tentativa de alcançar um objetivo maior (que incluem coisas tão diversas como fim de namoro, mostrar auto-estima, subjugar o outro com uma pretensa impressão de poder, etc), as pessoas podem dar um adeus pro autocontrole e fazer um barraco, reagindo além do que a situação precisa. E o grito é a expressão mais verdadeira de uma voz histérica.

Só que, em alguns casos, mais do que raiva expressa verbalmente, o distúrbio
histérico pode afetar reflexos motores, causando paralisia total, vômito e convulsão. Para não explodir de uma vez só, vale não reprimir os sentimentos. Essa tentativa, porém, pode ser inútil, já que Freud dizia que a repressão é um ato inconsciente, fruto de vontades primitivas incrustradas no cérebro humano. Os atores do filme não estão com raiva, apenas perderam o autocontrole, e gritam ou sobem o tom de voz com toda a emoção falsa possível para falar do orgulho de ser brasileiro.

Mas, porque tem que ser assim? Um experimento descrito na revista Psychological Science no início de 2009, afirma que exercer o autocontrole é algo desgastante. De fato, controlar o próprio comportamento em uma determinada situação diminui a nossa capacidade de nos autocontrolarmos nas situações seguintes, mesmo quando elas não estejam inter-relacionadas. Ou seja, quanto mais se usa, mais se gasta.

E, de acordo com os psicólogos que conduziram o experimento - Joshua M. Ackerman e John A. Bargh, da Universidade de Yale, juntamente com Noah J. Goldstein e Jenessa R. Shapiro, da Universidade da Califórnia, Los Angeles -, a situação piora quando imaginamos que, assim como a gente, a outra pessoa a quem estamos estranhando também está tentando ter autocontrole. Segundo os acadêmicos, imaginar o autocontrole de outra pessoa "pode levar de pequenos transtornos de autocontrole, tais como funcionários falando indevidamente durante uma reunião, até transtornos catastróficos, como policiais respondendo a um evento emocionalmente carregado com uma ação letal (disparando a arma de fogo, por exemplo)."

Faz sentido: se aqueles que gritam que são brasileiros podem ser reconhecidos e retratados em um comercial de televisão, porque eu iria querer ficar de fora da manada, para morrer estresssado, mudo e sozinho? Melhor ficar quieto e deixar que me manipulem, gritando por mim as coisas que tanto quero acreditar? TUDO EM CAPS LOCK PARA OUVIRMOS BEM?

Fontes: Tudo de Ensaio, Psychological Science

27.9.09

Como vencer um tabu

Na década de 1920, George Hill, presidente da American Tobacco Company, pediu ajuda ao sobrinho de Freud, Edward Bernays, RP em Nova Iorque, e iniciado nas teorias psicanalíticas do tio, para converter a atitude das mulheres perante o tabaco. Na época era inaceitável mulheres fumando em público, e o desafio era mudar essa percepção. Mais que isso, fazer com que mulheres fumantes fossem vistas como atraentes e desejadas socialmente.

Bernays descobriu que cigarros eram um dos símbolos do pênis. O brief de Bernays então foi transformar o ato de fumar pelas mulheres em um ato de contestação ao poder e autoridade masculinos. Se mulheres fumassem, então elas teriam seus próprios pênis, logo, teriam a sensação de poder.

O resultado criativo foi um PR Stunt criado na famosa New York City Parade. No desfile, um grupo de mocinhas ricas de Nova Iorque apareceram fumando em público. Não apenas fumando, mas criou-se uma performance dramática em torno do acendimento do cigarro, como um desfile à parte.

Bernays, usando sua influência junto à imprensa nova-iorquina, cantou a bola sobre o protesto que esse grupo de garotas faria a favor do ato de fumar em público, onde os cigarro acendidos representavam tochas da liberdade. Todos os veículos de comunicação foram lá ver o que era. O "protesto" acabou na primeira página do New York Times. Debates permearam a imprensa e tomaram conta da sociedade americana na época.

Se as mulheres tornaram-se fumantes foi porque o zeitgeist era perfeito. Foi uma época de intensas conquistas para as mulheres. O voto feminino estava dando seus primeiros passos, já que foi institucionalizado no início da década de 1920. Mulheres começavam a entrar como uma força relevante num mercado de trabalho então predominantemente masculino. Mulheres mudaram e queriam mais mudanças. Tudo o que se relacionasse, ou melhor, resolvesse essa tensão, seria altamente lucrativo e convertido em comportamento de massa. Bingo para Bernays, que fez algo melhor que propor um estilo de vida: deu motivos para que as mulheres mudassem e a sociedade aceitasse. Quem questionaria a alma americana: a liberdade, ainda que transformada em ícone por meio de um cigarro?

Depois de tudo isso, em menos de dois anos, a indústria do tabaco norte-americana aumentou seu (já rentável) mercado em 100%.

Isso e muito mais em The Century of the Self: