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17.12.09

Meninos e Meninas

Inspirada pela obsessão de sua filha pela cor rosa, a artista plástica sul-coreana JeongMee Yoon vem fazendo desde 2005 o projeto The Pink and Blue Project. Nele, Yoon explora as preferências de cor das crianças e seus pais através de diferentes culturas e grupos étnicos, sondando a identidade de gênero como uma construção socializada.


Yoon revela que a preferência das meninas pelo rosa e meninos para o azul não só é universal e generalizada, mas principalmente alimentada pela publicidade e meios de comunicação, que difundem intencionalmente uma mensagem para segmentar nas crianças e nos pais gênero com suas respectivas cores.


A pesquisa histórica de Yoon revela alguns dados curiosos, indicando que nem sempre foi assim:

A cor rosa já foi associada com a masculinidade, considerada um vermelho suave, e tinha o poder como atributo dessa cor. Em 1914, um jornal americano,The Sunday Sentinel, aconselhou as mães a "utilização de rosa para o menino e azul para a menina, se você for uma seguidora dos bons costumes." A mudança de cor de rosa para as meninas e azul para os meninos que aconteceu primeiro na América. Noutros países somente após a Segunda Guerra Mundial.


A mudança aconteceu enquanto a onda do politicamente correto fincava raízes no século 20, e, num esforço para promover igualdade de gêneros, as cores foram trocadas: meninos - azul; meninas - rosa. Porém, essa reversão, intencional e explícita, não erradicou o preconceito. Pelo contrário, apenas fez preconceito mudar de cor.


Esse é o trabalho de Yoon, que ilustra essas expressões excessiva e culturalmente manipuladas de feminilidade e masculinidade.

Como nas palavras do psicólogo uruguaio Juan Carlos Kusnetzoff:

"Em geral a cultura do Ocidente nao tolera muito bem a ambiguidade, a falta de definição clara. Costumamos nos irritar diante de nuanças e exigimos, muitas vezes de forma peremptória, a distinção exata entre o que convencionalmente chamamos mulher. Na realidade a natureza só traz a anatomia e a fisiologia. Tudo mais é produto de cada cultura e de cada grupo social"

16.4.09

Homens que são mulheres

De todas as discriminações sociais, a mais pérfida é a dirigida contra os travestis. Se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais, garotas de programa, mendigos, gordos, anões, judeus, muçulmanos, orientais e outras minorias que a imaginação mais tacanha fosse capaz de repudiar, a somatória não resvalaria os pés do desprezo virulento que a sociedade manifesta pelos travestis.

Quem são esses jovens travestidos de mulheres fatais, que expõem o corpo com ousadia nas esquinas da noite e na beira das estradas?

Apesar da diversidade que os distingue, todos têm em comum a origem: são filhos das camadas mais pobres da população.

A homossexualidade é tão velha quanto a humanidade, sempre existiu uma minoria de homens e mulheres homossexuais em qualquer classe social; caracteristicamente, no entanto, travestis só aparecem nas famílias humildes.

Na infância, foram meninos com jeito afeminado que, se tivessem nascido entre gente culta e com posses, poderiam ser profissionais liberais, artistas plásticos, empresários, costureiros, atores de sucesso. Mas, como tiveram o infortúnio de vir ao mundo no meio da pobreza e da ignorância, experimentaram toda a sorte de abusos: foram xingados nas ruas, ridicularizados na escola, violentados pelos mais velhos, ouviram cochichos e zombarias por onde passaram, apanharam de pais e irmãos envergonhados.

Em ambiente tão hostil poucos conseguem concluir os estudos elementares. Na adolescência, com a autoestima rebaixada, despreparados intelectualmente, saem atrás de trabalho. Quem dá emprego para homossexual pobre?

Se para os mais ricos com diploma universitário não é fácil, imagine para eles. O máximo que conseguem é lugar de cozinheiro em botequim, varredor de salão de beleza na periferia ou atividade semelhante sem carteira assinada.

Vivendo nessa condição, o menino aprende com os parceiros de sina que bastará hormônio feminino, maquiagem para esconder a barba, uma saia mínima com bustiê, sapato alto e um bom ponto na avenida para ganhar numa noite mais do que o salário do mês.

Uma vez na rua, todo travesti é considerado marginal perigoso, sem nenhuma chance de provar o contrário. Pode ser preso a qualquer momento, agredido ou assassinado por algum psicopata, que nenhum transeunte moverá um dedo em sua defesa. "Alguma ele deve ter feito para merecer", pensam todos.

Levado para a delegacia irá parar numa cadeia masculina. Como conseguem sobreviver de sainha e bustiê em celas com 20 ou 30 homens, numa situação em que o mais empedernido machão corre perigo, é para mim um dos mistérios da vida no cárcere, talvez o maior deles.

A condição de saúde dos travestis é precária. Não existe um serviço de saúde com endocrinologistas para orientá-los a respeito dos hormônios femininos que tomam por conta própria.

Muitos injetam silicone na face, nas nádegas, nas coxas, mas sem dinheiro para adquirir o de uso médico, fazem-no com silicone industrial comprado em casa de materiais de construção, injetado por pessoas despreparadas, sem qualquer cuidado de higiene. Com o tempo, esse silicone impróprio escorre entre as fibras musculares dando origem a inflamações dolorosas, desfigurantes, difíceis de debelar.

Ainda os portadores do vírus da Aids encontram algum apoio e assistência médica nos centros especializados, locais em que os funcionários estão mais preparados para aceitar a diversidade sexual. Nos hospitais gerais, entretanto, poucos conseguem passar da portaria, barrados pelo preconceito generalizado, praga que não poupa médicos, enfermeiras e pessoal administrativo.

Os hospitais públicos deveriam ser obrigados a criar pelo menos um posto de atendimento especializado nos problemas médicos mais comuns entre os travestis. Um local em que pudessem ser acolhidos com respeito, para receber orientações sobre uso e complicações de hormônios femininos e silicone industrial, prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis e práticas de sexo seguro.

A saúde pública não pode continuar dando as costas para essa minoria de homens, só porque eles decidiram adotar a identidade feminina, direito de qualquer um. Quem somos nós para condená-los?

Que autoritarismo preconceituoso é esse que lhes nega acesso à assistência médica, direito mínimo garantido pela Constituição até para o criminoso mais sanguinário?

-- Drauzio Varella
(originalmente publicado na Folha de S. Paulo em 11/04/2009.)