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29.11.09

Listras na solidão branca







Tinha esquecido numa pasta essas imagens. São fotos de icebergs na Antártica que revelam um universo maravilhoso por trás da brancura onipresente. Padrões de cores e formas surgem no degelo, escondido dentro dos icebergs. Lindo de ver. Pena que não será por muito tempo. Aproveitemos as fotos então.

E não, não são obra de pinguins craques em photoshop, como demonstra o site Hoax-Slayer. São the real thing.

7.11.09

A turba da Uniban

Coluna de Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo, 05.11.09

Na semana passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.

O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.

A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".

Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.

Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".

Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.

Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".

Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.

Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino - não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.

O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.

A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.

Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?

Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.

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Nota minha:

Tudo isso é muito triste. Intuo que não seja apenas um fenômeno brasileiro, mas também global. O mundo todo parece caminhar para isso. Quando Obama foi eleito, imaginei que alguns dogmas teriam sua queda como um efeito em cadeia. Que o fenômeno da austeridade seria um período de reclusão interior das pessoas, em busca de se centralizarem, encontrarem o equilíbrio internamente, sem o desvario do consumo para justificar sua existência. Bobagem minha...

Obama não mudou nada, pois nada muda nunca. O que esse caso Uniban nos mostra é o que realmente passa nas mentes e corações do real consumidor brasileiro jovem. Sim, esse que você insiste em ver como um jovem dinâmico, que gosta de balada, que estuda, que faz mil coisas ao mesmo tempo, que tá na luta, que tá na batalha, que conversa com seus amigos pela internet, que paquera, que quer viver a vida. Sim, eles fazem tudo isso, mas depois desse episódio da Uniban, a partir de uma amostragem de 700 dessa espécie, pudemos finalmente ver do que é feito o imaginário deles: machismo, moralismo, reacionarismo e sexismo. Porém, aqui não vale o fundamentalismo, pois eles não são infringentes de uma maioria. Sabemos agora que eles são a maioria, e a prova de que qualquer sufixo "ismo" caberá aqui como definição de doença. Não existe ética. Só existe um arremedo arcaico de moral.

Amigos publicitários, nada do que acreditamos sobre o consumidor poderá ser encarado da mesma forma. Algo mudou. É necessário regredir. É necessário repensar que, talvez, em nosso amado Brasil, não estamos vivendo em um momento de ruptura graças à tecnologia. O mundo pode até estar evoluindo, mas não cabe aqui no país. Maslow talvez não caiba para explicar o jovem brasileiro. Talvez o papel das marcas tenha que ser um passo anterior, algo mais próximo do papel civilizatório e não desses conceitos gringos bonitos, feitos para gente que já sabe usar papel higiênico.

Acho que, talvez, caberá às empresas e marcas e tal, o papel de ensinar ao jovem brasileiro dessa nova classe média emergente e universitária, conceitos como liberdade, individualidade, privacidade, igualdade, dignidade, e o mais importante: respeito. As empresas e marcas e tal não podem pensar em falar com um consumidor já pronto. Pelo jeito, assim como no início do século XX aqui no Brasil, teremos que criar um consumidor. O ciclo não se fechou, é preciso recomeçar, mais uma vez. Estão preparadas p'ra isso?

Se for verdade aquela máxima "Dê infinitas máquinas de escrever para infinitos macacos e eles eventualmente produzirão todas as obras de Shakespeare", temo que no nosso amado Brasil temos ainda que esperar por pelo menos 60 milhões de anos para evoluir.

Desisto...

PS.: A moça foi expulsa da Uniban.

21.10.09

Oh, My God - O que todo mundo quer é ser um cordeiro



Depois de muita metafísica com Quem somos nós? e misticismo em O Segredo, é chegado o momento de se voltar a Ele, a Deus, em mais este novo sucesso, em que até o Wolwerine expõe suas impressões.

Pudera: nenhum dos dois últimos clássicos espirituais da humanidade foram suficientemente conclusivos sobre o que propunham. Diferente dos livros de autoajuda e das próprias religiões, elucidar para as pessoas o potencial delas sem apontar um objetivo concreto e um porto seguro para os momentos de solidões é pedir que todos hajam como ruminantes. Ninguém quer pastar por pastar. Tem que pastar para engordar, enriquecer, chegar em algum lugar...

Vide os livros e outros vídeos que deram continuidade a leva de autoajuda lisérgica para tentar explicar ainda mais a bagunça que fizeram na cabeça das pessoas. Coisas do tipo o segredo do segredo, quem (realmente) somos nós, etc.

Enfim: o ser humano não tem vocação para ser pastor. Apenas ovelha.

27.9.09

Como vencer um tabu

Na década de 1920, George Hill, presidente da American Tobacco Company, pediu ajuda ao sobrinho de Freud, Edward Bernays, RP em Nova Iorque, e iniciado nas teorias psicanalíticas do tio, para converter a atitude das mulheres perante o tabaco. Na época era inaceitável mulheres fumando em público, e o desafio era mudar essa percepção. Mais que isso, fazer com que mulheres fumantes fossem vistas como atraentes e desejadas socialmente.

Bernays descobriu que cigarros eram um dos símbolos do pênis. O brief de Bernays então foi transformar o ato de fumar pelas mulheres em um ato de contestação ao poder e autoridade masculinos. Se mulheres fumassem, então elas teriam seus próprios pênis, logo, teriam a sensação de poder.

O resultado criativo foi um PR Stunt criado na famosa New York City Parade. No desfile, um grupo de mocinhas ricas de Nova Iorque apareceram fumando em público. Não apenas fumando, mas criou-se uma performance dramática em torno do acendimento do cigarro, como um desfile à parte.

Bernays, usando sua influência junto à imprensa nova-iorquina, cantou a bola sobre o protesto que esse grupo de garotas faria a favor do ato de fumar em público, onde os cigarro acendidos representavam tochas da liberdade. Todos os veículos de comunicação foram lá ver o que era. O "protesto" acabou na primeira página do New York Times. Debates permearam a imprensa e tomaram conta da sociedade americana na época.

Se as mulheres tornaram-se fumantes foi porque o zeitgeist era perfeito. Foi uma época de intensas conquistas para as mulheres. O voto feminino estava dando seus primeiros passos, já que foi institucionalizado no início da década de 1920. Mulheres começavam a entrar como uma força relevante num mercado de trabalho então predominantemente masculino. Mulheres mudaram e queriam mais mudanças. Tudo o que se relacionasse, ou melhor, resolvesse essa tensão, seria altamente lucrativo e convertido em comportamento de massa. Bingo para Bernays, que fez algo melhor que propor um estilo de vida: deu motivos para que as mulheres mudassem e a sociedade aceitasse. Quem questionaria a alma americana: a liberdade, ainda que transformada em ícone por meio de um cigarro?

Depois de tudo isso, em menos de dois anos, a indústria do tabaco norte-americana aumentou seu (já rentável) mercado em 100%.

Isso e muito mais em The Century of the Self: