29.10.09

A moça e os moralistas imorais



Nesse caso da moça e os estudantes da Uniban, existem algumas coisas que Contardo Calligaris definiu muito bem em outros assuntos, em suas colunas na Folha de S. Paulo, mas que vale para esse. Contardo, como bom observador do humano moderno, tem insights interessantes do ponto de vista psicanalítico. Como opinião de blogueiro não pode valer nesse caso - desculpem-me, mas é questão de estofo intelectual mesmo -, resolvi entender isso à luz da psicanálise. Nesse lamentável episódio, temos duas figuras que ajudam a entender o contexto do alvoroço em torno da moça, em especial o lamentável comportamento dos envolvidos, que gritavam "puta, puta", como se isso sequer fosse algo ruim:

(...)Afinal, depois de um bom século de psicologia e psiquiatria dinâmicas, estamos certos disto: o moralizador e o homem moral são figuras diferentes, se não opostas. 1) O homem moral se impõe padrões de conduta e tenta respeitá-los; 2) O moralizador quer impor ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar.

(...)Quem coloca ruidosamente a caça aos marajás no centro de sua vida está lidando (mal) com sua própria vontade de colocar a mão no pote de marmelada. Quem esbraveja raivosamente contra "veados" e travestis está lidando (mal) com suas fantasias homossexuais. Quem quer apedrejar adúlteros e adúlteras está lidando (mal) com seu desejo de pular a cerca ou (pior) com seu sadismo em relação a seu parceiro ou sua parceira.

O exemplo da adúltera, aliás, serve para lembrar que a psicologia dinâmica, no caso, confirma um legado da mensagem cristã: o apedrejador sempre quer apedrejar sua própria tentação ou sua culpa.

Como toda manifestação passional, o desenrolar das coisas é obscuro. Fala-se em tentativa de estupro por parte de alguns machos de plantão, além dos gritos de puta, por parte de algumas fêmeas. Em alguns casos, ouvimos falar que ela, a moça que ousou demonstrar sua feminilidade de forma mais clara, de certa forma teria que arcar com as consequências de sua libido. Afinal, como qualquer morador de país pobre, somos moralistas e, consequentemente, somos hipócritas. Nos agarramos ao nosso moralismo como forma de controlarmos o que há de mais animalesco em nós. Adjetivamos a moça como puta, por não sabermos o que fazer com nossa liberdade. Somos ovelhinhas nervosas.

A forma da moralidade moderna não é o veredicto, mas a pergunta. Para nós, é moral quem passa constantemente pelos impasses insolúveis de questões morais concretas. E é propriamente imoral o moralista, que declara saber de antemão o que é o bem e o que é o mal. O moralista é imoral porque, julgando o próximo segundo um sistema de regras instituídas, ele evita o rigor da exigência moral moderna. Castigar os outros é, para ele, o melhor jeito de desconhecer seus desejos menos confessáveis. Ou seja, o moralista condena para se absolver.

Hipocrisia sustenta pessoas assim, com vidas sexuais frágeis, que gozam mal e descontam em alguém que ousa ser diferente da manada. A sexualidade do brasileiro, além de hipócrita, é pobre também. Entendem sexualidade como função dos órgãos genitais, deixando de lado o simbólico do que somos feitos. Ainda temos um longo caminho a percorrer.

A distinção entre homem moral e moralizador tem alguns corolários relevantes. Primeiro, o moralizador é um homem moral falido: se soubesse respeitar o padrão moral que ele se impõe, ele não precisaria punir suas imperfeições nos outros. Segundo, é possível e compreensível que um homem moral tenha um espírito missionário: ele pode agir para levar os outros a adotar um padrão parecido com o seu. Mas a imposição forçada de um padrão moral não é nunca o ato de um homem moral, é sempre o ato de um moralizador.
Em geral, as sociedades em que as normas morais ganham força de lei (os Estados confessionais, por exemplo) não são regradas por uma moral comum, nem pelas aspirações de poucos e escolhidos homens exemplares, mas por moralizadores que tentam remir suas próprias falhas morais pela brutalidade do controle que eles exercem sobre os outros. A pior barbárie é isto: um mundo em que todos pagam pelos pecados de hipócritas que não se agüentam.

Intuo que essas universidades deveriam ter jaulas, e todos os alunos deveriam ser adestrados ou arrebanhados, como boas ovelhas moralistas que são. Cara, recomeça tudo, pois vai ser daqui pra pior... Que merda.

28.10.09

Soundscape Sony

A Fallon de Londres traz uma perspectiva diferente para a música. Numa ilhazinha na costa oeste da Islândia, que por si mesma é a definição de solidão, eles instalaram centenas de speakers da nova linha de áudio da Sony, e tocaram música ininterruptamente por 3 dias. O resultado é um mockuvertising, com as reações das pessoas ao som de artistas como Guillemots, Bob Dylan e Toumani Diabaté.



3 dias. Inteiros. Continuamente. Bombardeados por música. Uma avalanche de informações culturais no meio da calma branca. Será que isso é mesmo ducaralhu?

Sim, é uma visão romântica da música. Mais até que da medicina pitagórica, que atribuía à música um poder terapêutico por excelência. Porém, por mais poético que tenha ficado esse short film, sinto uma prepotência bem parecida com Whooper Virgins, do Burger King:



Numa das cenas de Soundscape, um garoto aparece com um celular. É uma quebra na monotonia da solidão ártica, mas também um elemento estranho, que indica contaminação.

Até que ponto a publicidade pode invadir a vida de pessoas que estão involuntária ou paradoxalmente tão longe, mas tão perto do "mundo ocidental"? Será que um simples par de speakers vai mesmo ser o elemento civilizatório que vai inserir essas pessoas involuntariamente isoladas nas maravilhas do capitalismo? Isso é progresso ou perversão? Será que elas realmente precisam desses produtos culturais e tecnológicos para viverem melhor?

Energia humana

Iniciativas bem interessantes têm provado que, para devices e elementos tecnológicos menores, o corpo humano é uma excelente fonte de energia. Não apenas em termos sustentáveis ou ecológicos, mas intuímos que isso possa criar uma nova percepção sobre a relação que temos com nosso corpo.

Human Power



O calor do corpo humano está sendo aproveitado em um novo projeto de pós-graduação do aluno Martijn Dijkhuizen, da Eindhoven Design Academy. O projeto de Dijkhuizen, chamado de "poder humano", traz brinquedos termodinâmicos, que são alimentado pelo calor dos corpos das pessoas enquanto elas estão dormindo. O projeto, que se concentra na produção de energia naquilo que o designer chama de "cinética urbana", na verdade transforma o corpo humano em uma usina.

Fastronauts e Dynamo





Criados por Sara Paculdo, esses brinquedos capturam energia a partir da movimentação física das crianças. O interessante nos projetos da Sara é que esses brinquedos funcionam acoplados a outros, como bicicletas, skates, etc. Movimento gera movimento.

Seiko Thermic



Em 2008, a Seiko criou uma linha de relógios que dispensa baterias, e funciona com o calor do pulso de quem o usa.

Esses exemplos, embora alguns deles protótipos, dão idéias bem interessantes para um futuro mais limpo, ambientalmente consciente e com atitudes mais positivas e otimistas.

Etilismo poético

Duas pessoas com backgrounds científicos - e que passaram por lugares como Apple e NASA - resolveram juntar forças para tentar entender o que há além daquilo que eles enxergavam. Metafísica à parte, os caras focaram no universo etílico e o transformaram em arte.

Por meio de um microscópio, BevShots faz arte abstrata fotografando o que há de invisível em bebidas tão prosaicas quanto vinho, cerveja e vodca. O resultado é interessante, cafona em alguns momentos, mas quem se importa com isso com umas doses a mais? Uma app pra iPhone te permite saber o que há na essência daquilo que você toma, numa galeria de fotos no seu celular.
  • Vodca:




  • Tequila:



  • Champanhe:



  • App iPhone:

Às vezes só chegando beeeeeem perto é que percebemos as coisas. Ou as visualizamos de maneira diferente.

Você é aquilo que teme

Há tempos o medo deixou de ser apenas -- como diria o Houaiss -- um estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência. Medo tornou-se algo além de uma 'simples' resposta biológica e psíquica à ameaça externa objetiva. A capacidade de sentir medo ainda é parte de nossa natureza, da nossa humanidade. Mas algo mudou.

Colapsos após colapsos, realidades que se diluem num piscar de olhos, a imprevisibilidade da vida que seguimos - tudo isso ajuda a nutrir essa cultura do medo, onde o que prevalece é o porvir e a ansiedade e a expectativa. O nosso sentir medo é ok, não dá pra mudar (e nem podemos querer que mude). É a experiência do medo que mostra-se como problema, e esta é afetada por influências culturais e históricas.

Dizem que se existe algum interesse em manter a cultura do medo, é pelo fato de ser uma das mais eficazes ferramentas políticas para amansar cidadãos, induzir comportamentos, justificar decisões militares (Iraque, alguém?) e, o que nos diz respeito, manter as pessoas consumindo, nem que para isso utilize-se o medo pelo medo, o medo de não corresponder às expectativas que a sociedade lhe atribui, ou os inimigos que nem você sabia que existia.

Você é aquilo que teme...

O pior inimigo é aquele que você não vê
Uso recomendado: Ataques químicos ou radioativos






Capas protetoras (incluindo itens para os pets), luvas, mochilas, cantis e até comprimidos para minimizar a radiação podem ser encontrados no paraíso do medo invisível: Approved Gas Maks.

Nóia executiva
Uso recomendado: ataques terroristas






Na caminhada rumo ao topo da carreira, alguns executivos escolhem acessórios como o Evacuchute: um para-quedas para civis. Quanto mais alto o prédio pior o tombo - melhor desembolsar USD 2,500 e ter a certeza de voar e pousar com segurança.

Energia extra pra manter a vida
Uso recomendado: isolamento/desastre ambiental



Cada balinha contém 2000 calorias. Uma bomba calórica para manter tudo em ordem até o resgate chegar.

Olho extra para enxergar onde você pisa
Uso recomendado: ambientes hostis com histórico de minas terrestres.





Detector de metal para tênis.

Fazendo amigos
Uso recomendado: evita ataques sexuais pelo boa noite Cinderela


Última palavra em tecnologia de segurança pessoal, o batom/gloss 2LoveMyLips é na verdade um kit que detecta drogas que eventualmente possam estar presentes na bebida. Ao mergulhar no drink, se der azul, melhor cair fora. Correndo. Em breve, 2LoveMyLips estará disponível no Reino Unido em vending machines em pubs e clubes, bem como na Austrália e EUA.

Proteção democrática
Uso recomendado: donos de carros que não podem pagar por um serviço de blindagem tradicional


De acordo com o site da DuPont, o mercado brasileiro de blindagem civil já é um dos maiores do mundo, porém o custo para adquirir um sistema de blindagem tradicional é alto. Por isso criaram o Armura, que garante proteção para toda a família, em quem tem Corolla, Vectra ou Civic, por apenas R$ 18.950, contra os R$ 50 mil da blindagem tradicional.


Agora, p'ra que isso tudo?

Oferecer paz de espírito, alguma sensação de controle, e uma leve sensação de prevenção a quem, por motivos diversos e que não cabe a você ou a mim julgar, se rendeu ao apelo do medo. Afinal, melhor prevenir, pois esse é o mundo que irremediavelmente vivemos.

Update Amaral

Em junho, disse que o medo sim tem valor, pois é moeda social. A abdicação ou abolição dos medos civiliza, insere. Ou seja: liberta. No Facebook, a Simone disse, em resposta ao que o Keid escreveu acima, que o medo é o combustível de religiões, mas medo sem religião dá mais medo. religião é combustível pra guerra. guerra é morte. morte é o medo em si. morte é paz? mas paz dá medo pq pode acabar, olha aí a culpa...culpa é medo. tu é foda, adorei a frase.

Pois, a definição de medo e das causas dele são subjetivas, mas alguma coisa temos em comum: a condição nesse planetinha safado.

Para não sustentar o próprio medo, mas a sensação de que algo bem pior sempre acontece na vizinhança, é o próprio medo que alimenta a percepção de segurança. É o que indica, pelo menos, a lista de notícias mais lidas do G1, às 9h29min de Quarta-feira (28.10).



E nada mais simbólico que a última cena do filme Clube da Luta, em que o personagem de Edward Norton pede para o de Helena Borham Carter (Marla) que todo o medo sobre o futuro seja deixado no passado, em uma fase "estranha" da vida dele, enquanto prédios entram em ruínas e os dois selam o fim dessa parte da história de mãos dadas. Talvez seja isso mesmo: além do medo, só existe a solidariedade.

21.10.09

Neo-hedonismo mostra a cara

Uma das coisas que percebemos entre o consumidor jovem aqui na CUBOCC, e dissemos na palestra sobre Geração Y no ResultsON Day, parece que está para se materializar em forma de produto cultural.

A Giu já tinha falado conosco a respeito, mas o Lucio Ribeiro deu mais detalhes no blog dele. (Bom, sem querer ser chato, mas eu editei o texto do blog. Olha, gosto do conteúdo do PopLoad, mas às vezes erram a mão no queerism. Calma, galere. Desculpem-me os jornalistas, ou até o próprio Lucio, mas aquele accent pajubá estava insuportável. Gente, não precisa disso, pois não é essa afetação camp que faz algo moderno. No máximo parece uma conversa entre travestis quarentonas old school em fim de noite na Rego Freitas.) Enfim, mas vamos às infos:

"420": São Paulo ganha seu seriado baseado em fatos reais

São Paulo recebe a partir de novembro as primeiras transmissões virtuais de "420": , um seriado sobre amizade, loucuras, gente legal e muita música. Idéia do videomaker Felipe Dall’Anese, "420"será uma coleção de curtas de uns 8 minutos cada que serão postados semanalmente em um site a ser divulgado.

Partindo da idéia de que “a vida dos meus amigos daria um seriado”, o diretor juntou um cast de 10 pessoas amigas, não atores, não amigos e atores para montar personagens que de certa forma representem o lifestyle de quem sai para clubes, shows, festinhas em casa, passeios, encontros, exposições em São Paulo. O que for, desde que reúna uma boa historinha que mereça ser enquadrado de modo estiloso dentro de um vídeo de oito minutos.

"420" conta com uma galera atuante de SP, em sua maioria, mas que se relaciona com amigos de BH, Porto Alegre, Londres. No Twitter, já rolou uma ação de divulgação, um viral em stopmotion e trilha legal mostrando o que vem por aí.



O seriado confirma nossas suspeitas e observações sobre o Neo-Hedonismo, que você pode ver aqui.

Mas não é nem isso que nos anima, e sim a possibilidade de uma visão mais realista e menos romantica sobre o Brasil que nos cerca. E mais, conteúdo brasileiro, falado em português sem o cabecismo acadêmico do cinema nacional, numa linguagem mais urbana. Isso é muito legal.

Parabéns, Felipe, pela coragem de investir nisso. Eu pelo menos estou ansioso para as cenas dos próximos capítulos.

Oh, My God - O que todo mundo quer é ser um cordeiro



Depois de muita metafísica com Quem somos nós? e misticismo em O Segredo, é chegado o momento de se voltar a Ele, a Deus, em mais este novo sucesso, em que até o Wolwerine expõe suas impressões.

Pudera: nenhum dos dois últimos clássicos espirituais da humanidade foram suficientemente conclusivos sobre o que propunham. Diferente dos livros de autoajuda e das próprias religiões, elucidar para as pessoas o potencial delas sem apontar um objetivo concreto e um porto seguro para os momentos de solidões é pedir que todos hajam como ruminantes. Ninguém quer pastar por pastar. Tem que pastar para engordar, enriquecer, chegar em algum lugar...

Vide os livros e outros vídeos que deram continuidade a leva de autoajuda lisérgica para tentar explicar ainda mais a bagunça que fizeram na cabeça das pessoas. Coisas do tipo o segredo do segredo, quem (realmente) somos nós, etc.

Enfim: o ser humano não tem vocação para ser pastor. Apenas ovelha.

20.10.09

Herbivore Man - (des) equilibrando a cadeia alimentar?

Eles são jovens japoneses entre 20-34 anos, héteros, que não correm atrás de mulheres - mas querem estar sempre bem vestidos e arrumados. Não têm pretensão de serem ricos, de acumular $ ou de atingirem um cargo máximo profissionalmente. Negam as expectativas que um típico macho-alfa buscaria realizar.

Acreditam que amizade com mulheres pode existir sem sexo.

Sexo que, aliás, é traduzido literalmente como "relacionamento na/pela carne" no Japão. São chamados de herbívoros por isso: menos interesse em sexo, menos interesse no carnal = herbívoros.

Dizem que, na verdade, essa sensibilidade (não confundir com fragilidade) e não voracidade é uma volta ao homem tradicional japonês - aquele descrito na literatura de antes da II Guerra. Foi só depois dela que a fama de japonês 'animal competitivo e sexual' se firmou, devido à competição com o Oriente e com o crescimento econômico de após.

Talvez reflexo de uma crise econômica recente, que deixou 5% da população sem emprego. Talvez só mais um nome para jovens desajustados ou tímidos demais para enfrentarem o ecossistema de presa e predador que sempre existou. Seja o que for, as japonesas deixam o instinto Darwinista de sobrevivência falar mais alto: preferem os carnívoros porque eles parecem mais resistentes e pró-ativos.



Reuters CNN

15.10.09

FauxPunk - No Future versão séc. XXI

Como proferiu Yann Arthus-Bertrand : é tarde demais para ser pessimista. Na verdade, mesmo que você queira fazer alguma coisa para tentar consertar o mundo, você será tomado por uma preguiça monstruosa. E até entendemos o motivo.

Nesse mundo hiper-individualista que vivemos, nem faz muito sentido se revoltar. Muito menos se unir a outros dissidentes, criando assim uma insurgência contra o sistema, contra a China, contra o aquecimento global ou Deus. Pra que, afinal? Quem vai reconhecer isso?

Essa preguiça, que é mais discurso que ação, mais revolta angustiada em cima da cama que revolução nas ruas, e mais opinião do que fatos é chamada FauxPunk. E leve em consideração que, esteticamente, o punk nunca morreu. Anarquia pode ser um valor interessante a ser usado nos próximos meses.

O caminho já está aberto, só falta ser trilhado:

Existe um buzz enorme em torno da primeira temporada da série Sons of Anarchy, e repercute no mundo todo:



De acordo com o blog Poltrona, Sons of Anarchy foi criada por Kurt Sutter (The Shield), e retrata um grupo de motociclistas que importa ilegalmente armas do grupo terrorista IRA (Exército Republicano Irlandês) para revender para mafiosos chineses e italianos, além de gangues formadas por latinos e africanos.

Baseada em Hamlet, de William Shakespeare, a série mostra o conflito de Jax Teller (Charlie Hunnam) com o padrasto Clay Morrow (Ron Perlman, de Hellboy), suspeito de matar seu pai em aliança com sua mãe, Gemma Teller Morrow (Katey Sagal, de Um Amor de Família).

Ou até mesmo a exposição Né Dans La Rue, da fundação Cartier:

Dizem que até vão a fundo na história dessa ferramenta da contracultura, antiacadêmica e visceral. Alçada ao status de arte contemporânea, é engolida pela Cartier, que a devolve como snacks para uma elite entediada, pois qualquer sinal de revolta e contestação foi sanitizado, minimizado e não provoca medo.

Para terminar, um forte indício de que o FauxPunk vai ser mais que tendência, e se tornará um estilo de vida, é no clipe que reúne 3 dos maiores popstar da música negra norteamericana: da música nova "Run This Town", junta-se a JayZ, o Kanye West e a Rihanna, numa mistura indigesta (e cafona pra caralho) de BladeRunner, MadMax e Warriors:



Todos os caminhos nos levam à anarquia: estética, ética, mental e espiritual. Só escolher e seguir adiante.

Inspirado em D.Planneur
:-)

14.10.09

10.10.09

A volta do homem arquetípico? Demorou...

Bom, primeiro: o que é um arquétipo?

No Houaiss diz que, de acordo com Jung, discípulo de Freud e criador da psicologia analítica, arquétipo é todo conteúdo imagístico e simbólico do inconsciente coletivo, compartilhado por toda a humanidade, evidenciável nos mitos e lendas de um povo ou no imaginário individual, especialmente em sonhos, delírios, manifestações artísticas etc.. Um arquétipo é uma imagem primordial, que é NECESSARIAMENTE coletiva, e existem por muitas e muitas gerações. O sensacional site Saindo da Matrix fala isso de uma forma bem interessante, mas dá uma pista mais exata quando questiona:

"Se deixarem de acreditar em um Deus, ele desaparece? Provavelmente sim. Mas o Arquétipo que o originou fará que sua função seja ocupada, em outra mitologia, por algum outro conceito substituto."

Pode-se entender que os arquétipos são espécies de respostas típicas a situações típicas, que têm como objetivo maior nos humanizar, querendo dizer com isso que aprendemos o que é ser humanos através dos arquétipos.

Depois disso, posso entrar no assunto desse post, que é algo que há tempos discutimos aqui dentro da CUBOCC: a volta do homem com barba como representação masculina para a publicidade. Isso acontece desde 2006, conforme matéria do NYTimes, onde a barba invadiu os rostos de alguns sex symbols de Hollywood. Mas só agora em 2009 é que se materializa como arquétipo, pois vai além de elementos isolados e criam narrativas completas.

Assumimos isso como um mea culpa da publicidade, que sempre foi pródiga em replicar estereótipos, ou seja, uma idéia ou convicção classificatória preconcebida sobre alguém ou algo, resultante de expectativa, hábitos de julgamento ou falsas generalizações.

Quando falamos em arquétipos masculinos, embora existam classicamente, vemos alguns deles representados em campanhas de grandes marcas mundo afora. Exemplificamos algumas campanhas de outono e inverno para 2009/2010 onde eles aparecem de forma gritante.

Existem uma série de arquétipos que servem como matrizes de imagem para o homem desde que nos tornamos animais simbólicos (na verdade, quando deixamos de ser caçadores e passamos a ser agricultores - trilênios atrás). Essas matrizes de imagem ou, conforme dissemos acima, imagens primordiais, ajudam ao homem a definir o que é ser homem, masculino, e entender os atributos da masculinidade.

Todos ele são descendentes do arquétipo masculino maior - O Grande Pai. Eis alguns exemplos dentre muitos:

  • O caçador / trabalhador
  • O herói
  • O guerreiro
  • O padre / pastor , ou aquele que guia espiritualmente
  • O rei

O homem comum de hoje em dia passa por uma enorme crise de identidade pois esses arquétipos foram corroídos pela convulsão em nossas estruturas sociais, as drásticas alterações nos papéis dos gêneros, e o desaparecimento de modelos masculinos fortes. Nunca, em toda a história humana, nós enfrentamos esse tipo de conflito que os machos da espécie estão passando. Hoje, os homens são forçados a se redefinir, ainda mais pela ascensão de estereótipos como os (blergh!) metrossexuais.

O estresse que esse tipo de coisa causa ajuda a piorar ainda mais a vida do consumidor. Não adianta publicitários tirarem o c* da reta e dizerem que nada tem a ver com isso, por apenas refletirem a "realidade do consumidor". Não! É mentira, pois todos sabem o valor civilizatório dessa área que a gente ganha o pão, assim como o poder legitimador/formador de opinião que a gente tem.

Um exemplo brazuca sensacional é o da Schincariol, com a campanha "Pega Leve". Nele, um sujeito deixa-se influenciar pelos estereótipos e no final acaba cedendo ao arquétipo:



Não apenas atitude, mas percebemos que cenários tornam-se arquetípicos:






  • A clássica maison Hermès vem se alimentando dessa visão arquetípica há umas duas estações. Mas é na atual que isso se faz mas claro:

  • Por meio do cenário:



  • Por meio da caracterização do modelo Patrick Petit Jean, que se configura como um homem que pastoreia:



  • Aliás, Patrick Petit Jean (e sua barba rebelde) parece ser o cara a trazer a imagem do homem arquetípico de volta à moda:






  • Update: assim como Sebastien Chabal, jogador de rugby francês




  • A barba tem sido metáfora essencial e eficiente do simbolico masculino, e está presente em muitas campanhas, funcionando como um convite ao homem a viver seus arquétipos:
  • Na Aether Apparel:



  • Na Moncler, por meio da figura do fotógrafo hirsuto Bruce Weber, que também reflete a figura de um trabalhador que pastoreia, mas sem rebanho, apenas ele e sua matilha:



  • Louis Vuitton também enobrece os homens por meio do arquétipo do rei:



  • E também a marca inglesa Hackett:



  • Patek Phillipe, a marca de relógios, faz um blend de arquétipos há anos, em campanhas simples, porém geniais. Vemos em todas a figura do Grande Pai, do Rei, com alguma coisa do guerreiro e do pastor:


  • Mas é a campanha da Go Forth, da Levi's, que melhor soube atualizar os mitos e os arquétipos, transformando-os em algo inteligível para todo mundo:






Quando tudo parece confuso, perdido e previsível, nada mais natural que um retorno às raízes para reencontrarmos nossas identidades. Felizmente, num tiro que dou no meu próprio pé, não é por meio de produtos ou marcas que isso acontece. Nenhuma marca, em hipótese alguma, tem o poder de nos definir. E, se o faz, é de forma pobre e estereotipada. Um espelho velho e embaçado, que tenta nos imitar.

Elas podem até dar o início a um processo de autodescoberta, mas depois são deixadas de lado, pois não há, apesar de todas as nossas falhas, algo mais fascinante que a noção de humanidade - nossas singularidades, nossas possibilidades e o mistério de sermos assim tão únicos.